A primeira menina que gostei na vida era mitomaníaca
Devo começar dizendo que eu sou uma pessoa deveras melancólica, ainda mais nessa transição de fim de um ano e começo de um novo, onde olhamos pro passado e relembramos o que passou e o caminho que queremos traçar a partir de agora. É algo comum as pessoas compartilharem desse sentimento de saudosismo, mas acho que a diferença no meu caso é que eu tenho uma memória muito afiada, e por conta dessa minha habilidade, eu lembro de coisas incrivelmente úteis, tais como os meus usernames e de todos os meus amigos virtuais com quem interagia a 15 anos atrás. De tempos em tempos, tenho o hábito prejudicial de dar uma bisbilhotada nas redes sociais desses ex-amigos.
O meu diagnóstico tardio de autismo me ensinou que essa coisa de revisitar o passado tem a ver com a rigidez cognitiva, demonstrado pelo senso de justiça aguçado, mas eu também aprendi que a neurodivergência traz essa característica nomeada alexitimia, que é a dificuldade para identificar e expressar os próprios sentimentos. Então, por 15, quase 16 anos desde que essa história aconteceu, eu pensava que toda vez que eu a relembrava, era saudade. O que eu entendi recentemente é que na verdade, tem muito mais rancor do que saudade.
Deixa eu contar então a história da primeira menina de quem eu gostei.
O Fandom
Por ser a primeira, obviamente ela foi a causa do desabrochar da minha sexualidade (que só para contexto, ainda era o descobrimento somente da sexualidade, porque a descoberta do gênero só viria uns 5 anos depois da data início dessa história).
Em 2010, no auge do passatempo “assistir clipes na MTV e ir à tarde ao shopping de calça skinny colorida tomar casquinha do McDonald's”, eu fiz amizade com algumas pessoas no finado Twitter porque todos nós éramos fãs da banda Cine. Mais especificamente, todos nós tínhamos conta de fã-clube no Twitter, dedicado aos nossos respectivos membros favoritos. Lá pelo fim desse mesmo ano, ficamos próximos o suficiente para um grupo se formar, e algumas vezes fazíamos “janelão” de conversa no MSN (na época, não tinha como fazer um grupo que ficava fixo nos seus contatos, então, toda vez que queríamos fazer um chat de galera, era uma conversa nova; por isso e pela natureza caótica das conversas, chamávamos de janelão) onde passamos a conversar a madrugada afora com alguma frequência. Era divertido.
era assim que ficava
No fim deste ano, duas garotas desse grupo começaram a ficar bem mais próximas entre si. Pra clarificar, vou chamá-las de Bárbara e Larissa. Bárbara morava na cidade de São Paulo, como a maioria dos integrantes do grupo, e Larissa morava no interior do estado. Em algum dos últimos shows do ano que o Cine fez, Bárbara, Larissa e uma terceira amiga do grupo de quem Bárbara era amiga na vida real (vamos nomeá-la como Lorena), conseguiram se encontrar pessoalmente e se conhecer pela primeira vez. Na realidade, eu estava presente nesse show também, mas acabei, por algum motivo, não conseguindo me encontrar com as 3 garotas, mas encontrei um outro amigo desse mesmo grupo do janelão.
Depois desse momento, a dinâmica do grupo mudou. Não sei se vocês já presenciaram isso, mas quem viveu na pele sabe que amizades femininas ficam intensas com muita facilidade e rapidez: em pouquíssimo tempo depois de se conhecerem pessoalmente pela primeira vez, elas foram conversando mais em particular, fora do grupo, e ficaram tão próximas que começaram a serem bem mais afetuosas uma a outra publicamente no Twitter. Primeiro de forma bem escrachada e de brincadeira, depois intensificando o uso do apelido carinhoso de “namô” entre elas.
Em coisa de um mês depois desse primeiro encontro fora da internet, elas oficializaram o namoro. Passaram a receber muitas perguntas anônimas no Formspring, Bárbara recebia perguntas sobre Larissa e Larissa recebia sobre Bárbara. Todas as perguntas muito curiosas sobre como era o namoro, davam detalhes sobre o que conversavam, sobre quais eram os outros apelidos carinhosos que usavam uma com a outra, sobre as cartas e presentes que trocavam, por aí vai. Era uma história fofa de namoro à distância.
o fato dela ter feito o anúncio no meu aniversário é uma coincidência doida kkk
Só tinha um detalhe: eu e todas as pessoas do grupinho sabíamos que elas não estavam namorando. A Bárbara se dizia hétero, e na verdade quando ela respondia perguntas sobre o namoro no Formspring, ela sempre era evasiva e vaga nas respostas, de forma que não deixava claro a situação romântica. A Larissa era quem se dedicava pra responder as perguntas no Formspring com textos mais longos, colocava fotos de presentes e cartas que enviava e recebia da Bárbara etc, então parecia que a Bárbara só estava indo na onda dela.
E não poderia ser por conta de nenhuma homofobia que possivelmente viria do grupo porque, a Lorena (amiga da vida real da Bárbara) era parte desse grupo e lésbica. Então, não havia motivo pra fingir pra internet ou pra nós amigos, se elas só estivessem com medo de assumir esse namoro.
Eu vendo isso acontecer na minha frente, simplesmente não conseguia entender porque caralhos alguém mentiria sobre algo estúpido assim. A troco de quê? O que elas ganham enganando as pessoas assim? Fama no Formspring?
Eu comecei a ficar obcecado com essa situação. Como a Larissa estava muito mais investida em fazer todo mundo acreditar nesse namoro fake, eu comecei a confrontar ela, indagando o porquê de continuar com esse teatrinho, pedindo pra que ela contasse pra todos os fãs anônimos do Formspring dela que era tudo mentira (pois é, teve uma hora que começaram a aparecer shippers de verdade nas redes sociais das duas). Ela nunca cedeu, sempre deu desculpas de que era só uma brincadeira e que estava se divertindo com a mentira.
Eu agora com 28 anos consigo entender muito bem porque alguém mentiria sobre algo tão estúpido: é óbvio que a Larissa estava muito apaixonada pela Bárbara, e a Bárbara, sendo (supostamente) heterossexual, não sentia da mesma forma (ou sentia, mas não queria assumir nada real) então fazer a brincadeirinha de namorar era o máximo que ela poderia chegar. O que o meu eu de 12 anos só foi entender um pouco depois de toda essa história começar, é que eu fiquei obcecado em desmascarar esse namoro falso porque eu estava com ciúmes da Larissa.
Não consigo me lembrar direito da ordem dos fatos, mas acredito que foi pouco tempo depois delas terem assumido o “namoro”, eu tive um estalo de que eu gostava da Larissa romanticamente. Com a idade que tinha, penso que veio até com certa naturalidade o modo em que mudei rapidamente de frustração em relação à situação pra aceitação do fato de que eu era (na época ainda pensava ser) uma menina que gostava de uma menina. Lembro de estar deitado na cama e simplesmente acender essa lâmpada na cabeça de que era isso que eu estava sentindo e tudo fez sentido.
A declaração
O que faria as coisas ficarem bem mais complicadas foi o que veio depois dessa epifania. Eu nunca fui do tipo de sofrer por amor em silêncio, de guardar declaração pra mim mesmo, sempre deixei muito claro pras pessoas que eu gostava delas. Então resolvi ter uma conversa com a Larissa no MSN, onde contei pra ela que estava desenvolvendo sentimentos por ela.
O que ela me respondeu nessa conversa foi surpreendente. Eu com a tenra idade de 12 anos certamente estava esperando na minha fantasia romântica que ela largasse a mão da mentira de fingir um namoro com a Bárbara e que iria escolher ficar comigo. Não só não foi isso que aconteceu, mas foi pior: A Larissa me “aconselhou” a desistir de seguir “por esse estilo de vida”, dizendo que havia tido sentimentos como esse no passado (no caso, por mulheres) mas que uma tia dela a ajudou a trilhar o caminho certo, apresentando ela a palavra de Deus e a igreja, e que agora ela não tinha mais essas “vontades”. Disse que eu deveria fazer o mesmo. Larissa era um pouco mais velha que eu (16 pra 17 anos), então as palavras dela tiveram um impacto bem significativo, tinham um certo peso de autoridade.
Ainda assim, eu fiquei incrédulo. Não computei aquilo como homofobia no momento porque eu não conseguia conceber como uma pessoa que fingia ter namorada poderia falar algo assim, não fazia sentido.
A pior parte é que esse período foi marcado pela minha mãe sendo o mais ferrenhamente católica do que ela já foi antes na vida. Ela, passando por uma depressão após término com o pai da minha irmã (que ainda nem tinha nascido!), começou a assistir o canal da Canção Nova todos os dias, levar eu e meu irmão à missa todo domingo e eu também passei a frequentar a catequese semanalmente junto dela. Isso começou a formar o meu desconforto com a igreja e religiosidade, o que plantou a semente pra eu me tornar ateu anos depois. Já não gostava de frequentar esses espaços por achá-los maçantes, e agora mais do que nunca eu tinha um motivo a mais pra não gostar; eu tinha um segredo a ser guardado.
Minha amizade virtual com a Larissa foi ficando meio esquisita depois dessa conversa, ainda que se mantinha próxima. Eu, com meu tato social negativo, continuei insistindo na ideia de que ela deveria ficar comigo de verdade, não continuar no fingimento. Passei a fazer tweets deixando claro que estava sofrendo de amor não correspondido, e dizia abertamente para ela que era por ela que eu estava sofrendo. Por um tempo, fui muito insistente, chato, e inconveniente, não conseguia aceitar o não. E por muitos anos, quando relembrava essa história, focava muito nesse ponto e ficava bem envergonhado. Hoje, eu consigo me perdoar, olhando com mais distância. Ainda mais considerando a idade que eu tinha, não me é estranho eu ter agido dessa forma, apesar de ainda pensar ser errado.
O encontro
Mais alguns meses se passaram, e acabou surgindo a oportunidade de eu e a Larissa nos conhecermos. Ela viria à São Paulo novamente pra um show da banda Cine, como foi da vez que estivemos no mesmo espaço mas não nos encontramos. Eu ainda tinha sentimentos por ela, mas em algum momento ao longo dos meses eu deixei de explicitá-los publicamente, tanto porque o teatrinho no Formspring e Twitter foi perdendo o fôlego gradativamente.
Nos encontramos pessoalmente nesse festival de música onde a banda Cine iria ser uma das atrações, em junho de 2011. Ver ela pessoalmente reacendeu qualquer paixão que tinha sido afogada pelos comentários religiosos que ela fez quando eu me declarei pra ela meses antes. Nunca havia pensado que seria possível a gente se encontrar (minha mãe não me deixava ir até a cidade vizinha, quiçá pro interior).
Ao mesmo passo que tive o vislumbre inicial de vê-la na minha frente, também houve alguns choques. Poucos minutos depois de nos encontrarmos pela primeira vez, começamos a andar juntos pela arena onde os shows aconteceriam, e passamos por uma menina vestida de maneira bem extravagantemente no estilo scene, ou em termos brasileiros, emo colorido. Ela tinha o cabelo liso, com mechas, cortado na navalha, bem típico para época. Nunca me esqueço do comentário que a Larissa fez, algo na linha de “se minha filha se vestisse assim, eu chutava para fora de casa.”
Larissa sempre foi meio padrão. Cara hétero, cabelo liso castanho, estatura média, se vestia como típica patricinha mas com uns requintes alternativos, que nas tendências daquele momento eram vezes uma camisa ou vestido de estampas florais, e outros momentos uma camisa de flanela com um Vans old skool.
Apesar de no início do evento eu ter me encontrado com outras amigas, passamos o dia todo juntos, acompanhados pela minha prima e por uma amiga da cidade dela. Dediquei toda minha atenção do dia à ela, e ela retribuiu. Tanto retribuiu que até fez coisas além do que uma amiga faria pra me agradar. Mais próximo do fim do dia, depois do show do Cine acabar, fizemos uma sessão de fotos na câmera da minha prima enquanto outro show rolava, e eu tenho essas fotos salvas até hoje: foto dela fazendo a inicial do meu nome (morto) com as mãos, mais de uma foto nossa abraçados, e uma foto nossa em que a pose era eu dando um beijo na bochecha dela enquanto ela me segurava.
como eu disse, amizade feminina né kkkk
Ainda mais tarde da noite naquele dia, um cara mais velho veio dar em cima de mim. Estava claramente bêbado e eu não conseguia nem abrir a boca pra recusá-lo, acho que eu estava só o ignorando pra ver se ele parava. A Larissa, vendo isso acontecer, veio a minha defesa. Disse pra me deixar em paz, que eu estava com ela e que era minha namorada. Nesse momento do bate boca eu simplesmente me agarrei nela e não sabia onde enfiar a cara, então escondi o rosto no ombro dela. O bate boca continuou, com o cara pedindo pra que a gente provasse que éramos mesmo namoradas, dizendo “Se beijem então! Quero ver.” Era um misto de vergonha, medo e êxtase dela ter se colocado pra me defender, além de ter dito que era minha namorada pra afastar o bêbado.
Voltei eufórico pra casa depois desse dia, estava extremamente feliz. Não só tinha conhecido a minha crush pessoalmente pela primeira vez, como ela tinha meio que flertado comigo durante o dia (apesar de que, pelo que eu me lembro, ela ainda estava “namorando” a Bárbara nesse ponto).
Mas nada mudou depois desse dia.
As outras mentiras
Continuamos amigos, e fomos aos poucos nos afastando até não ter mais contato. Lembro de termos brigado em algum momento depois desse dia, mas não lembro do motivo. Talvez por eu ter voltado a insistir numa tentativa de ficar com ela, mas sendo sincero, realmente não me lembro.
Agora, é possível que alguém lendo isso tudo, apesar das revelações da atitude homofóbica dela, bem como esses movimentos de me dar esperança de algo romântico rolar entre nós, você pode ter achado exagerada a forma que descrevi ela como mitomaníaca no título. Não sem motivo, porque realmente é um termo carregado de conotação negativa e eu não vou negar que também adicionei pra dar um título mais impactante pra essa história tão antiga.
Mas depois dessa lorota do namoro com a Bárbara, houveram outras: a Larissa era conhecida por ser uma fã antiga da banda Cine, conhecendo eles quando ainda eram chamados de Without Shoes, em 2007. Por conta disso, ela disse que era próxima do Bruno, o baixista. Certa vez, um tempo depois de nos vermos pessoalmente, ela me contou pelo MSN sobre o show do All Time Low que ela foi acompanhada do Bruno. Disse que os dois ficaram isolados no camarote juntos e que dançaram lentamente como numa valsa ao som de Remembering Sunday, música que ela disse ser “a música deles”. Ela sempre comentava sobre como sentia saudade de passar tempo com ele, mas nunca disse que conseguia fazer isso fora de ver ele em camarins da banda; se eram próximos, não era possível só simplesmente ligar pra ele pra chamá-lo pra sair?
Supostamente, ela tinha meios de comunicação diretos com ele pra que isso fosse possível. No início da nossa amizade, quando ainda não éramos tão próximos, eu enviei um e-mail que supostamente era o e-mail do MSN do Bruno pra ela, pedindo pra que ela confirmasse que era realmente ele. Ela disse que era, e então eu prontamente enviei uma solicitação de amizade (sim, eu era esse tipo de fã insuportável). Quando contei pra ela que eu não havia sido aceito ainda após algum tempo, ela disse que ele não logava tanto e que fazia tempo que ela não o via online.
Quando as perguntas sobre a Bárbara perderam o fôlego no Formspring, ela contou uma história sobre um ex-namorado dela que havia falecido, mas não deu detalhes de como, quando, onde e porque ele faleceu. Óbvio que ela pode ter escolhido não falar sobre isso por ser um assunto delicado, mas coincidentemente foi após o rolê com a Barbára terminar e ela começar um namoro com um garoto da cidade dela.
Só no decorrer de muitos anos após esses acontecimentos que eu comecei a pegar o quão esquisitas e mal contadas eram essas histórias. Acho que é por isso que, pra além do coração partido de não ser correspondido, eu me sentia traído e manipulado toda vez que lembrava desse grupo de amigos e dessa pessoa.
Tiveram momentos, coisa de uns 10 anos atrás, que eu pensei em confrontá-la novamente sobre a verdade dessas histórias, mas depois decidi por não fazer, porque só seria uma repetição da situação que já acontecia enquanto éramos amigos.
O que sobrou
Como comentei no início, tenho (e estou tentando parar) com o hábito de stalkear as redes sociais das pessoas com quem não falo mais, quando me batem esses pensamentos do passado. Acho que muito desse hábito vem de uma vontade de validar meus sentimentos: isso aconteceu mesmo? Eu não tava maluco, né?
O que eu sinto que ainda falta agora quando penso nessas pessoas é ser validado pelo o que eu passei. Nunca contei isso pra ninguém, pelo menos não nesse nível de detalhe; acho que o grande motivo pra eu querer escrever esse texto vem disso, apesar de ser vergonhoso admitir, eu quero ser reconhecido por ter sido a vítima nessa história. Eu era um pré-adolescente que estava indo contra o padrão esperado pra mim (não querer um relacionamento hétero), e não só eu não poderia pedir apoio a minha família sem ser repreendido, como eu fui repreendido pela própria pessoa de quem eu gostava.
Eu não sinto raiva dela, não mais. Acho que já tive por um período, mas hoje compadeço e tenho empatia pela homofobia internalizada que ela estava sentindo. E eu digo homofobia internalizada com convicção, porque quando comecei a escrever essa postagem há cerca de um ano atrás, no Instagram dela tinham postagens recentes dela com a namorada dela.
Também sinto pena de mim mesmo. Eu me importei tanto com pessoas que me machucavam tremendamente, mas fiz vista grossa para pessoas que estavam tentando se aproximar de mim e queriam meu bem. Desenvolvi uma desconfiança por qualquer laço mais afetuoso e tento desmantelar esse hábito até hoje.
É possível até que eu esteja lembrando muito mais dos erros dela do que dos meus, que eu também agi de maneira tão ruim quanto pra revidar a dor que eu estava sentindo. Mas acho que esse é outro motivo pra abrir essa história pro mundo. Gostaria de saber se, assim com Larissa teve impacto em mim, se eu também tive um impacto em alguém, à ponto dessa pessoa ainda pensar em mim mesmo depois de 15 anos sem conversar, mesmo que seja de forma negativa.
E espero conseguir fazer com que as marcas que deixo nos outros e que deixam em mim passem a ser mais positivas daqui pra frente.


